A norma que citam para falar de IA na psicologia não fala de IA
A Resolução CFP 09/2024 trata de atendimento por tecnologias digitais, não de IA. A norma que governa o seu uso de inteligência artificial é outra.
Se você andou vendo software de psicologia se anunciar como "em conformidade com a Resolução CFP 09/2024" logo abaixo de um selo de inteligência artificial, vale saber de uma coisa antes de assinar qualquer um deles.
A Resolução CFP 09/2024 não é sobre inteligência artificial.
Ela regulamenta o exercício profissional da psicologia mediado por tecnologias digitais da informação e da comunicação — telepsicologia, em português corrente. Foi ela que revogou a Resolução 11/2018 e a 04/2020, e foi ela que encerrou a obrigatoriedade do cadastro no e-Psi, plataforma desativada em agosto de 2024.
Quem leu o texto inteiro aponta que a expressão "inteligência artificial" não aparece uma única vez nele.
Isso não é implicância com marketing alheio. É que a confusão tem consequência: quem acredita que existe uma resolução autorizando IA na psicologia fica com a sensação de que o assunto está resolvido. Não está.
Ausência de norma específica não é permissão
Quando não existe regra sobre uma ferramenta nova, a tentação é ler isso como sinal verde. Na psicologia, funciona ao contrário: a ausência de norma específica joga você de volta para as normas gerais — o Código de Ética e as resoluções que regem registro, documentos e avaliação psicológica. E essas não abriram exceção nenhuma para máquina.
A responsabilidade técnica continua sendo de quem tem CRP. Não existe "a IA sugeriu" como atenuante em processo ético, do mesmo jeito que nunca existiu "o teste apontou".
A norma que de fato governa o seu uso de IA tem dezessete anos
Se você usa qualquer ferramenta para ajudar a escrever evolução, organizar anamnese ou levantar hipóteses, a regra que te alcança é esta:
E esta:
Note o que isso implica na prática. Se a IA produziu um texto e ele foi parar no prontuário, aquele texto agora é seu — registro sigiloso, sob a sua responsabilidade técnica, sujeito a fiscalização do Conselho e ao acesso do próprio paciente. Não existe texto de máquina dentro do prontuário: existe texto que você assinou.
Três perguntas antes de escolher a ferramenta
Ela separa o que a máquina sugeriu do que você concluiu? Esta é a pergunta mais importante e a que quase nenhum sistema responde bem. Se a sugestão da IA entra no mesmo campo onde você escreve a sua leitura, daqui a dois anos ninguém — nem você — vai saber qual parágrafo era hipótese de máquina e qual era raciocínio clínico. Num processo ético, essa distinção é tudo.
Ela afirma ou pergunta? Ferramenta que devolve "o paciente apresenta traços de dependência emocional" está fazendo afirmação sobre uma pessoa a partir de texto — algo que nenhum modelo de linguagem tem como sustentar. Ferramenta que devolve "vale explorar como ela descreve os vínculos mais próximos?" está fazendo o que máquina faz bem: apontar para onde olhar.
Para onde vão os dados? Você é o controlador desses dados perante a LGPD, e boa parte deles é dado sensível. Saber em que país o conteúdo é processado, se é usado para treinar modelo e como se exclui tudo não é curiosidade técnica: é parte do seu dever de sigilo.
O que isso significa na prática
IA em psicologia não é proibida nem liberada. É como qualquer outro recurso auxiliar: entra sob a sua responsabilidade, e o que sai dela só tem valor profissional depois de passar pelo seu julgamento.
Ferramenta boa reduz o tempo que você gasta organizando para sobrar tempo de escutar. Ferramenta ruim promete substituir o que só o CRP pode fazer — e quem paga por essa promessa, quando ela falha, não é o fornecedor do software.
Desconfie de quem vende conformidade citando uma resolução que não trata do assunto. Quem estudou a norma explica o que ela diz. Quem não estudou, cita o número.
De onde saiu o que está escrito aqui
Como a gente resolveu isso aqui
No Método Chuva, a sugestão da IA vive num campo separado do campo onde você escreve a sua leitura — separados no banco de dados, não só na tela. A saída dela vem em forma de observação e pergunta, nunca de conclusão, e o texto que tem valor profissional continua sendo o que você escreveu e assinou.
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